Uma criatura bate em minha porta e pede para entrar. Eu digo a ela que nada sei, não deve me atormentar. Nas paredes que descascam, vejo uma vida de dor, objetos feitos de amor – A criatura bate. – No freezer e na minha alma, pedaços de gente, um caminho trilhado. Dentro da mente, um ser crucificado, um coração que pende, os dotes de um viciado. A luz ardente que me asfixia vem do amor incontestável, cruel, maligno. Divino, amável, frio. Ao canto uma vidraça quebrada, à minha frente uma pistola, atrás de mim a criatura que transpassa a fenda e se lança pela porta. O veneno; o doce veneno. Meu amor quente e amargo, minha criança indecifrável. Assim ao som do vento, estendidos ao eterno sofrimento, bebemos a morte um do outro. Esperamos uma resposta sem conhecer a pergunta, deitamos e choramos pesadas lágrimas salgadas de suplício e desgosto. No fim, sobra-nos não a verdade, mas a crueldade e o desencanto, e somente a chance de escolher – Como morrer?
Venha para mim, criatura sombria, cubra-me de beijos e encantos. Celebrando a agonia, pela rua dançando e cantando. Eu vou correr da chuva – Está chovendo (sangue) – Correndo em direção ao medo – Do que estamos fugindo (agora)? – Deus está aqui – Deus não está aqui – Eu vou embora – Você vem comigo? – Meu coração está pendendo no quadrante.
Ó cálida criança, definhe nestes braços feridos, aqueça-se com minha pele rubra, manchada, de vidro. Ó linha turva, meu destino inconcebível, traça-me outra razão ou me entrega a nova sina. Fera. Assassina. Crianças deformadas, pássaros de fogo vindos do céu. A vida – Cruel. Nossa dança.
O coração explode! Ó coração que explode!
Dançamos na chuva, grunhindo em sintonia. A sua carne macia e fria entre meus dedos, lábios úmidos segredando em harmonia. Seguro em minha mão a peça gélida de fogo e lamúria, serpentes de aço. Uma vida de ódio, de dor e cortes profundos, tudo ao acaso. Meu medo da morte – O futuro – O aspecto da morte – Meu passado – A morte do medo – Pálido rosto, minha bela criança.
A morte – Solitária. Desesperadora.
Vamos dançar apenas nós dois, a criatura e eu. Face de porcelana, coração de diamante. Vestes fúnebres, veias de metal. Meu sangue é gasolina, estamos cobertos de gasolina. Existirá uma fagulha entre nós.
Um a um, todos caem à nossa volta, o mundo deixa de existir. Eu respiro – Eu vivo? – Eu falo – Eu digo? – Eu sofro – Eu morro? – Bailarina, bailarina, anjo sem asas. Não devemos temer os sopros, nem as rugas, nem as marcas. Eu olho para os lados e as ruas se tornaram portões de passagem para um outro lugar. Criatura suprema, desce do altar, afunda tuas unhas em meu peito, arranca e devora esse coração necrosado. Levarei você para longe dos pecados e mergulharemos em um mar eterno do mais puro horror. Sorria para mim, meu doce amor – Não era isso o que você queria? – Eu não devo temer, já estou morto e enterrado. O pudor está em falta, não há nada de errado. Enquanto a carrego nos braços, roubo seu calor e através da bala crua, maciça, disparada, carrego nossas almas dançantes e incandescentes para fora do vazio, afastando-nos da vida, adentrando o pilar cáustico e inconsistente da eternidade.
Longe de tudo, a criatura desfere golpes desesperados contra a porta...
LB
Pedaços de deus.
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1 observações deturpadas:
Pseudo intelectualismo levado a loucura do luxo
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